Prelo
Prelo apresenta os recursos e reflexões para que escritores possam construir uma disciplina autoral, escrever o seu livro e publicar da melhor maneira possível. Se você nutre o desejo de escrever uma obra de ficção ou não-ficção: um romance, um livro de contos, uma peça de jornalismo literário, um ensaio, uma saga distópica, a narrativa de uma viagem, uma obra infantojuvenil ou um projeto autoficcional – ou se já publicou uma obra e gostaria de sanar as lacunas de sua formação –, você está no lugar certo. Prelo é um podcast quinzenal com o escritor e professor...
Como trocar o celular pelos livros
#147 – Você sabe: o vício da nossa era são as telas. Eu, como a maioria, passo mais tempo diante de um celular do que seria razoável.
Fui verificar: 4 horas e 10 minutos por dia. São quase 30 horas semanais. É uma jornada de trabalho dedicada às Big Techs, que investiram volumes vultuosos (retirados de nós, é claro) para tornar a “experiência mais imersiva”. Trinta horas semanais que poderiam ser dedicadas ao convívio, à contemplação, ao descanso dos olhos e do pensamento, ao devaneio puro e simples. Ou à escrita e à leitura.
Fui fazer essa conta. Se eu...
Literatura e RPG
#146 – Quem diria: o role-playing-game está voltando.
Na verdade, ele nunca foi embora de todo. Na pandemia, enquanto alguns assistiam a lives de banquinho & violão, outros se distraíam com transmissões ao vivo de longas campanhas fantásticas, onde elfos, druidas, anões e paladinos partiam em missões super arriscadas, masmorras adentro.
É um universo imenso, que envolve cartões, tabelas e tabuleiros, um álbum de lembranças nostálgicas dos anos oitenta e noventa cheias de anglicismos – The Legend of Zelda, Final Fantasy, Ravenloft, DarkSun, Dragonlance –, e inclui dados de vinte lados, miniaturas que foram de chumbo...
O futuro das histórias: videogames, audiotours e IA
#145 – Há poucos dias, voltei de uma viagem a Dublin, na Irlanda, onde fui convidado para falar sobre o meu livro novo, ainda inédito. O International Dublin Writers Festival durou um fim de semana, e foi realizado na Trinity College, uma universidade fundada em 1592, por onde passaram autores como Bram Stoker, Sally Rooney, Samuel Beckett e James Joyce.
Foi muito bacana falar em voz alta sobre o tema de um projeto que tem me ocupado há anos, e ainda por cima numa língua estrangeira. E foi igualmente interessante uma certa impressão de como os europ...
O jogo infinito da literatura
Hoje eu quero conversar com você sobre o jogo infinito da literatura. Como a gente pensar grande na hora de escrever? E, inversamente, como podemos pensar pequeno no processo de escrita?
Na segunda parte do episódio, falo sobre o que fazer quando terminamos de escrever um livro:
✅ Vamos conversar sobre a ansiedade da conclusão, e de como manejá-la.
✅ Das diferenças entre a primeira versão e a última do seu livro.
✅ De um recurso bastante simples para, uma vez concluído, voltar a enxergar o seu livro e lapidar-lhe sua forma final...
Do que é feito um bom romance?
Você conhece a abertura do romance de Tolstói, Anna Kariênina? É um clássico:
"Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira."
Acho que com os romances é o contrário: romances ruins se parecem. Cada bom romance é bom à sua maneira.
Existem, no entanto, quatro atributos que identifiquei ao longo de mais de quinze anos de leitura de originais, e que estão presentes em quase todos os bons livros.
São os seguintes:
SurpresaBelezaFalta/FomeSingularidadeSe você quer saber no que consistem, e como aplicá-los...
afinal, escrever paga as contas?
#142 – Afinal: um escritor pode viver de sua escrita? E sob quais condições?
Que fique claro: ninguém abraça a literatura para ficar rico. Se esta é a sua única intenção, recomendo que busque outros caminhos, menos incertos. Escrevemos porque amamos os livros, e é saudável para a sua escrita que continue assim.
Se você me acompanha, sabe que raramente trato do tema dinheiro e vida artística, por mais importante que eu o considere. Em primeiro lugar, porque não sou e não quero ser mais um influencer que se vale das nossas angústias f...
Por que, afinal, você não realiza seus sonhos.
#141 –
Como estar presente
#140 – Se existe uma coisa em comum entre bons livros, esta coisa é a atenção aos detalhes.
Os detalhes da frase. A escolha das palavras. A singularidade das analogias. As metáforas, a coesão da obra como um todo, fruto do trabalho, da carpintaria reflexiva.
Os sinais inevitáveis de que o autor fez do livro uma casa, e deixou ali marcas de convívio e de experiências.
O tempo da escrita pode ser visto, também, como uma viagem a uma terra estrangeira.
Se você passa três dias de um feriado em...
O Caos Criativo
#139 – Muitas vezes, a nossa miséria nasce de não podermos corresponder a ideais muito elevados que estipulamos para nós mesmos. Do que a vida deveria ser, de como os outros precisam se portar, de uma aura impossível que o nosso ofício dos sonhos precisa carregar.
Nesses últimos tempos, tenho trabalhado ativamente em um livro, que – espero – deve ficar pronto no início do segundo semestre.
O momento de costura da escrita é o de um sentimento oceânico. Sinto muito prazer em dialogar internamente com as experiências e leituras de que trato no li...
Como estruturar o seu livro
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#138 – Pouca coisa no trabalho da escrita é mais mal compreendida do que a estruturação de um livro.
Muita gente confunde estrutura com supressão de liberdade criativa.
Toda arte tem o seu enquadre. Teatro, dança, pintura. A escrita não é diferente.
Mesmo que um ator deseje levar o seu teatro para as ruas, dificilmente irá considerar o palco um constrangimento a sua arte.
A estrutura...
Como buscar a simplicidade na escrita
O que fazer com os clássicos?
#136 – Você não leu Guimarães Rosa nem Proust. Perdeu a aula de Homero. Não ouviu falar em Tucídides.
Talvez tenha lido é um ensaio de Schopenhauer afirmando que o escritor, se é de verdade, mesmo, precisa ser afiado em latim.
Os livros pendem sobre a sua cabeça. Os clássicos. Obras vultuosas, de autores categóricos, peremptórios, aparentemente tão certos de si. Agora um tanto calcificados pela poeira que acumulam.
Eis que chega a vida adulta, e as lembranças desencontradas dessa memória de leituras sem método (Drummond se repreend...
Como Transformar uma Tese em um Livro – Os Três Maiores Equívocos
#135 – Como transformar um projeto que está guardado na gaveta — uma tese, uma dissertação, um ensaio acadêmico ou mesmo anos de prática profissional — em um livro capaz de alcançar leitores fora da universidade?
O que precisa mudar quando um texto deixa de falar apenas para especialistas e passa a dialogar com o público amplo?
E por que tantos autores altamente qualificados tropeçam justamente nesse momento de transição — quando tentam transformar conhecimento sólido em um livro vivo, curioso, capaz de ampliar horizontes e despertar perguntas no leitor?
Neste episódio...
Como a I.A. pode contribuir para a produção literária?
Neste episódio de Prelo, vamos falar sobre os princípios da I.A. Muita coisa mudou nesse últimos anos e ela tem parecido, cada vez mais, uma ferramenta incontornável. Você abre o seu e-mail, o seu processador de texto e você se depara com a mensagem: "Você não quer que eu escreva para você?" ou "Você não quer que esse recurso seja ativado?".
Parece que, da troca de mensagens à escrita de e-mails e elaboração de redações e trabalhos, a inteligência artificial tem sido insidiosamente presente. Em que medida isso é positivo? Em que medida isso...
A Psicologia da Criação
Neste episódio de Prelo, você vai aprender a entender e superar bloqueios criativos e resistências internas.
Estes medos enraizados: o que são? Do que se alimentam? Como aprender a ignorá-los? Como NÃO revisar os seus originais com as lentes da autodepreciação?
Na primeira aula desta semana, conversamos sobre o trabalho criativo e o percurso autoral. Afinal, um romance é um meio de denunciar, de mergulhar num mundo próprio, de fomentar a própria voz e estimular a riqueza da linguagem.
Para forjar um livro é preciso acreditar que ele vai exis...
Projeto: Um Romance em 2026
#132 – No novo episódio de Prelo, tenho um exercício para você. É a primeira aula para a escrita do seu romance em 2026.
São 12 perguntas reflexivas que você deve se fazer para se preparar para escrever o seu melhor livro no ano que começa. É um tempo para sonhar. Se você escrevesse ou seu livro, o seu romance, nos próximos meses, como será que a vida seria para você? Como você imagina este cenário?
Quão motivada, quão motivado você está para aprontar isso?
O que isso faria para a sua...
Melhores Leituras de 2025
#131 – Já reparou que o tempo se dilata quando lemos? Por aqui, 2025 teve cinquenta meses, e resolvi dividir com você algumas das leituras mais intensas e absorventes que fiz desde o remoto mês de janeiro.
Indico as melhores porque sei que, para escrever bem, precisamos da companhia de bons livros. E para seguirmos motivados, nada como leituras que orientem caminhos.
Foram histórias em quadrinhos, ensaios, romances. Clássicos e contemporâneos. Não me pautei muito em categorias, nacionalidades prévias. Eu me servi do que gostava. Segui o apetite.
Se quiser, p...
As Etapas da Publicação de um Livro
#130 – Publicar não é uma ciência exata. Mas suas variáveis são mais ou menos previsíveis.
Cada livro que escrevi cumpriu um caminho distinto no mundo das editoras, percorreu algumas etapas específicas. Publicar por uma casa editorial pequena não é o mesmo que lançar o seu livro por uma editora grande, ou ter a sua obra divulgada pelo Sesc ou pela Funarte.
Nesses mais de 20 anos publicando, percorri diversos caminhos. E posso dizer que, apesar das especificidades, existem algumas etapas necessárias – e outras altamente recomendadas – pelas quais você deverá passar<...
Biomas Afetivos: Leituras de Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus e Augusto de Campos – uma conversa com Reynaldo Damazio
#129 – “É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor da separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio – já estudei matemática que é a loucura do raciocínio – mas agora quero o plasma – quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim? Ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de...
O que tem funcionado no mundo da publicação?
#128 – Muita coisa mudou no mundo editorial nos últimos vinte anos.
Por conta de um certo saudosismo ou de uma certa romantização, temos dificuldades em enxergar isso.
Práticas de divulgação, debate e publicação praticamente se extinguiram. O papel do jornal e da livraria diminuiu, as editoras se multiplicaram. Aquilo que funcionava há vinte anos não funciona mais.
Ao mesmo tempo, muitas possibilidades surgiram no universo da publicação, incluindo aí a autopublicação, o financiamento coletivo, o print-on-demand, a criação de uma plataforma autoral. Autor e leitor têm a chance...
O escritor fora: crônica da mudança e lembrança de Roberto Bolaño
#127 – Eles estão por fora.
Não participam. Fazem questão de não saber. Estão envolvidos com suas próprias coisas. Absorvidos por sua militância particular.
São indiferentes à polêmica mais circunstancial, ao sobe e desce dos palanques, dos congressos do ofício. “Você viu?” “Soube do que disse ele, do que disse ela?” Não, não sabem. Você vai ter de contar. As colunas do jornal? O lançamento blockbuster, aquele debate em que todo mundo irá se envolver por vinte e cinco dias corridos? Ele ouviu falar qualquer coisa, sim. Você lhe conta, el...
Como se Faz um Podcast: Jornalismo Narrativo & Pesquisa – Uma Conversa com Fábio Corrêa
#126 – Pouca gente sabe que, ao longo de dois meses neste ano de 2025, contei com a ajuda de um excelente jornalista para a preparação deste Prelo. E digo que já estava ficando mal-acostumado quando Fábio Corrêa disse que seu projeto pessoal de podcast tinha sido selecionado para financiamento e subsequente apresentação em nenhum outro lugar senão na Deutsche Welle (DW), emissora internacional de rádio, TV e internet da Alemanha, com foco em jornalismo independente e programação multicultural.
O Fábio foi para a Alemanha e a gente não se falou mais, a...
Impulsos Limitantes: Entendendo os Padrões que Destróem o que Estamos Tentando Construir
#125 – Pensar não é fácil. Muitas coisas entram no caminho.
Nosso ego. Nossa bile. A convenção social. A inércia. Tudo entra no caminho.
Pensar não é fácil. Obedecer é fácil. Dizer sim quando todos estão dizendo sim.
E no entanto, para sermos autores, precisamos responder pelo que dizemos.
Não é à toa que muitos autores reagiram de formas que pareceram incompreensíveis aos seus pares em determinado tempo.
Quem se lembra dos silêncios desconfortáveis de Clarice numa entrevista?
Quem se lembra da reação de Doris...
Massa Crítica: A Escrita Inevitável
#124 – Há um momento em que a escrita se torna inevitável.
Em que o esforço para escrever se dissipa no hábito.
Não é que o processo se torne automático. Enquanto gesto, ele será sempre ativo.
Ele preservará sempre a sofisticação, o cuidado necessário para se desenvolver. Ele continuará dinâmico, animado por suas próprias metamorfoses.
Mas algo se dá, e é quase como se o autor, a autora, fossem interlocutores da obra — não donos, mestres ou proprietários.
Dirigimo-nos à nossa criação com uma pergunta, uma sentença...
Realidade Psíquica: O Inconsciente Criador e as Viagens no Tempo do Escritor de Ficção Científica Philip K. Dick
#123 – Você encontra nas redes sociais a referência a um livro do qual nunca ouviu falar. O título, Como construir um universo que não se desfaça dois dias depois, te deixa completamente encantado. De algum modo, ele conversa com aquilo que você tem estudado, pensado, elaborado dentro e fora de sua prosa.
Dois dias depois da chegada do livro à sua casa, você tem um sonho. Nesse sonho, você está construindo uma montanha-russa, que é parte integrante de uma formação sua sobre escrita.
Embora publicado na década de 1970, o livro fala com uma clareza assomb...
Acolher a Mudança
#122 – Convenhamos. Mudar não é fácil. As dúvidas irão certamente nos tomar de assalto. Tem certeza? E se isso, e se aquilo? Medo de não dar certo. De não ser bom o suficiente. Medo de decepcionar a si mesmo. Consciência de um risco, das feridas narcísicas. De confirmar os piores temores.
É muito mais fácil ficar parado. Na posição vantajosa em que tudo é possível, mas nada foi feito. No ponto zero, em que tudo é apenas virtual. Em que o devaneio toma o lugar da materialidade das coisas.
Se você tem pensado...
Habitar o Hábito: o método gradual e radical para fazer da escrita uma prática regular
#121 – É possível escrever com regularidade e não perder a mão do desejo original da escrita? É possível transformar a escrita em um ofício, e inventar com a liberdade do tempo livre? Como fazer isso?
Neste episódio, Tiago Novaes propõe uma reflexão sobre como transformar a escrita num hábito prazeroso, consciente e enraizado.
A partir de experiências pessoais e conceitos da psicologia e da psicanálise, ele compartilha caminhos para construir um sistema criativo sustentável — sem culpa, sem metas inalcançáveis, mas com presença e profundid...
Começar a Escrever: Como (não) falar de si mesmo
#120 – Recentemente, numa visita à biblioteca da minha nova cidade, topei com uma edição d'As aventuras de Tom Sawyer, um clássico de Mark Twain. Logo no prefácio, o autor esclarece: Tom Sawyer existiu. Mais que isso – foram muitos os colegas de infância que inspiraram a criação do personagem.
O protagonista e suas peripécias são o resultado da combinação de lembranças pessoais e impressões dos amigos de escola. O pulo do gato: além de testemunho, o clássico é também invenção. O vivido, nas páginas de um livro, é uma argila que p...
Imitação, Homenagem, Inspiração: brevíssimo anedotário de plágios – uma conversa com Juca Novaes
#119 – Tem coisas de que sinto falta em morar em São Paulo. Uma delas é sem dúvida o encontro regular com um primo muito querido em um restaurante japonês, a poucos metros da estação Liberdade do metrô. Advogado, o Juca sempre chega de terno aos nossos almoços. Pedimos os dois o mesmo prato: o tradicional teishoku com missô, acepipes, anchova grelhada e arroz japonês. Além de advogado, o Juca é músico e escritor. Ilustrado, progressista, lúcido, meu primo é o único parente com quem tenho esses longos papos sobre tudo – das nossas apreensões sobre a política às a...
Terapia do livro: como a leitura pode transformar o mundo e a si mesmo
#118 – Não: a leitura não pode ser mais vista como um hábito elitista. Houve um tempo em que a interpretação de texto, da mensagem, do diálogo, era uma arte tão consumada e habitual que sequer possuía nome. As convulsões da democracia hoje comprovam que saber ler – um livro, o mundo –, não é capricho, mas necessidade. Não há sociedade nem autonomia sem a leitura.
Mas além disso, a ciência comprova o que leitores já intuem há séculos: os livros são um bálsamo. O hábito de mergulhar em uma ficção ge...
Clareza de Pensamento: boas (e pequenas) escolhas que transformam a escrita
#117 – Embora nem sempre um ato de urgência, a escrita – ao menos para as pessoas entretidas no ofício – é uma prioridade.
Escrevemos para saber onde estamos, e para onde vamos. Escrevemos para dar corpo ao nosso corpo. Para abrir os olhos. E para fechá-los.
E para isso, será preciso conceber um lugar sereno a partir do qual nos assentamos. Um jardim, um pequeno templo. Um tatame. A terra úmida onde enterrar a semente. Um lugar predominantemente psíquico.
O problema é que as condições para a criação quase nunca serão perfeitas. Você...
Inspiração e Devaneio na Prática Regular da Escrita
#116 – É um caminho comum. O desejo da escrita se torna projeto. Tornando-se projeto, vira tarefa. E como tarefa, aliena-se. É algo a mais a cumprir. Perde o sentido.
Se o ofício requer prática, recorrência, assiduidade, torna-se fundamental aprender uma prática dentro da prática: aquela que impede a escrita de se converter em exercício: repetição mecânica, protocolar, que busque o caminho mais curto, o caminho do lugar comum, do discursivo, do mero pertencimento a um grupo, a um corpo de expectativas.
Escrever pode ser prazeroso. O que nunca poderá se tornar é conve...
No princípio era a estrada: as caminhadas de Rimbaud, os sentidos da peregrinação, a jornada como transformação pessoal
#115 – Quando era muito jovem, Rimbaud escreveu: “Sou um pedestre, nada mais.”
Caminhar é despedir-se. É acolher o novo que se torna antigo, e que parte. Toda vez é a última vez. Toda vez é a primeira vez.
Nas palavras de Frédéric Gros, "quem caminha por geleiras sem nome, céus sem amanhã e pradarias sem história dispersa lascas cortantes de seu olhar, que se cravarão nas coisas. Se caminha, é para fazer uma incisão na opacidade do mundo. [...] O peregrino é uma metáfora da condição humana."
Caminhar é fazer do dia uma obra de arte. E, como em certas...
Campo de Estrelas: talento e processo, as projeções na criação, a participação do inconsciente na escrita
#114 – Quando era criança, era minha tia que contava as histórias. E foi o meu irmão, três anos e meio mais velho do que eu, que tinha originalmente o sonho de ser escritor. Ele preenchia seu caderno com ideias e títulos para histórias aventurescas, e criava fanzines, ilustrava essas histórias e partia para a aventura seguinte.
Nada me fascinava mais do que isso. O ato de contar e de escutar histórias é sempre criativo. Olhamos para o céu, em torno da fogueira, e lá encontramos os nossos personagens, o nosso destino, a pro...
Voltar a escrever com as mãos: o resgate do caderno e da caneta
#113 – Com tantas distrações e chamarizes, com tanto preparo que antecede a prática, o ato artístico, com tanto ruído e falsas necessidades, o caderno e a caneta podem ser os melhores amigos da escritora, do escritor.
Certos livros pedem um retorno às origens, ao prazer primordial em deitar as palavras num caderno, ao tempo dos diários, ao tempo do livre devaneio. Certos livros pedem que você faça isso – lançar-se às palavras. Deixar a revisão excessiva para um segundo momento. Não voltar atrás.
Neste episódio de Prelo, falamos...
Da escrita, um ofício: uma conversa com Juliana Feliz
#112 – Uma das coisas mais bonitas de escrever é a oportunidade de fazer bons amigos.
As amizades na vida adulta levam anos para se formar. A que tenho com a Juliana Feliz começou nas redes sociais. Ela acompanhava o canal e era bastante ativa por lá. Em 2021, inscreveu-se na formação para romancistas, ocasião em que conheci a sua produção literária, sua história como jornalista e o princípio de sua trilogia.
Dois anos mais tarde, nos encontramos ao vivo na cidade do Porto, em Portugal, onde ela vive desde 2019 com toda a família – m...
Imaginar: Sonhar o Livro, Testar Limites, Encontrar Energia, Negociar Desejos
#111 – Nas aulas de psicanálise da faculdade de psicologia que cursei, havia uma máxima que os colegas costumavam achar muito misteriosa. Levava anos para que viéssemos de fato a compreendê-la. Era mais ou menos assim: para se relacionar com algo, o bebê precisa primeiro aluciná-lo.
Sem linguagem, sem palavras, a realidade está mais para o informe que para a forma. A realidade seria uma torrente – ou várias – de estímulos sem origem, tempo ou lugar, se não chegássemos a construir a permanência das coisas dentro de nós. Há uma sabedoria do bebê...
Maestria: o caminho da orientação, da prática e da entrega à literatura
#110 – Existe faixa preta em literatura? Quando alcançamos a maestria na escrita, e o que isso significa?
Nesse episódio de Prelo, a escrita é vista como uma arte marcial. E como em toda prática, algumas chaves vão te orientar neste caminho.
Projeto: um romance em 2025
#109 – Começamos o ano! Neste episódio, tenho um exercício para você. É a primeira aula para a escrita do seu romance em 2025. São 12 perguntas reflexivas que você deve se fazer para se preparar para escrever o seu melhor livro no ano que começa.
É um tempo para sonhar.
Se você escrevesse ou seu livro, o seu romance, nos próximos meses, como será que a vida seria para você? Como você imagina este cenário?
Quão motivada, quão motivado você está para aprontar isso?
O que isso faria para a sua vida? ...
Amar o Processo: Como aprender a conviver com as coisas difíceis e crescer de verdade em qualquer coisa que você quiser
#108 – Um artigo recente da revista “The Atlantic” joga luz sobre um dado alarmante: alunos de universidades de ponta não conseguem mais terminar um livro. Cinco anos atrás, um professor podia indicar cinco obras ou mais a seus alunos em um semestre. Hoje, eles não conseguem terminar um.
No Brasil não é diferente.
As telas estão comendo o nosso cérebro. Faculdades básicas de compreensão, riqueza de vocabulário e interpretação de texto estão sendo minados. Ironia, empatia, ambiguidade, tudo está indo pelo ralo. Mas há algo mais grave que subjaz a es...